Como é fácil dizer que alguém está desafinado. O difícil é ensinar como afinar, mostrar o que é afinado e o que é desafinado.

BIS Records - The Criminal Trombone
Capa do disco The Criminal Trombone

No ano de 2001 entrei na ULM (Universidade Livre de Música) e comecei a fazer aulas com o professor Silvio Gianetti Jr., meu primeiro professor de trombone; e o cara que fez eu me apaixonar pelo instrumento. No final do primeiro ano de aulas, ele levou uma caixa de sapatos cheia de fitas cassete. Olhou para mim, começou a procurar dentro da caixa e falou: “Achei! Você vai gostar desta aqui! Era “The Criminal Trombone” do Christian Lindberg. Ouvi até a fita gastar.

Um outro momento que marcou minha vida foi a aula que ele deu sobre afinação. Estávamos ensaiando um quarteto e a afinação não estava muito boa. Ele parou e nos contou o segredo.

Teoricamente é fácil: o som é produzido através de ondas, quanto mais rápidas, mais agudo, quanto mais lentas, mais grave. Então, se eu estiver tocando a nota “lá”, que vibra 440 vezes por segundo e alguém do meu lado estiver tocando um “lá” vibrando 441 vezes, estamos desafinados. E na prática?

Se você estiver tocando sozinho, use um afinador. Se você estiver tocando a mesma nota que outra pessoa, primeiro use um afinador, depois, acho interessante os dois tocarem juntos, para ver se o som está igual. É simples, o som tem que ser o mesmo, parecendo uma pessoa só tocando. Mas nós tocamos em banda, não tocamos em uníssono o tempo inteiro, então aí está o ponto.

Vamos pensar em um “Low Brass”, informalmente também conhecida como “baixaria”, tradicional de orquestra: trombone 1, trombone 2, trombone baixo e tuba. Precisamos primeiro verificar qual é o acorde, e que instrumento está fazendo qual nota. Para ficar claro, vamos usar o acorde de dó maior. Dó, mi e sol.

Primeiro, precisamos afinar a nota principal, o dó. Do jeito que falei, primeiro use o afinador, e se duas pessoas estiverem tocando o dó, toquem a nota entre si. Em seguida, é preciso afinar o sol, a quinta do acorde. Afinador no sol e em seguida, toquem juntos o dó e o sol. Nesse momento, você precisa ficar atento se a afinação entre as quintas está correta. Quando está afinado, acontece uma fusão dos sons, causando uma vibração. Sabe aquela vibração que existe quando você ouve um órgão de tubos tocando? Ou uma sanfona? Fica aquele “vvvvvvvvv”.

Esse é o som afinado. Se você está tocando notas diferentes e não consegue perceber essa fusão, é porque está desafinado. Esta vibração é importantíssima!

Depois que você afinar a tônica e fizer a relação com a quinta, é hora de afinar a terça, o mi. Aí temos uma questão um pouco diferente, pois nem sempre a terça estará afinada junto com o afinador. Para acontecer essa fusão de sons em muitos casos a afinação da terça deve ser abaixada. Digo em muitos casos pois nem sempre é assim, varia de instrumento para instrumento. Mas se você seguir esses passos, vai facilitar muito.

Já que estou falando da maioria dos casos, vou distribuir o acorde para os instrumentos. Tuba com o dó, trombone baixo também, trombone 2 com o mi e trombone 1 com o sol. O primeiro da turma a estar afinado tem que ser a tuba. SEMPRE! Para termos um bom Low Brass, precisamos começar por um bom naipe de tubas. Elas estão com a tônica quase sempre e dão toda a base e sustentação para a banda inteira.

Se você estiver tocando em um dia muito frio, como foi no concurso de Santa Isabel em 2019 ou muito quente, como é Caieiras quase todo ano, afine pela Tuba, se ela não chegar na afinação com o afinador, sugiro que a banda inteira siga a afinação que ela conseguir, o importante é que todos estejam afinados juntos.

Em seguida, afine o dó no trombone baixo, seguindo a afinação da tuba. Depois, afine o sol trombone 1, também de acordo com a tuba. E para o final, afine o mi do trombone 2, sempre atento para a fusão dos sons e a vibração característica de quando está afinado.

O treinamento de afinação é muito importante, pois quando estamos tocando, não conseguimos parar para afinar cada acorde, por isso é fundamental que isso seja estudado antes, nos ensaios. Pode ser que você esteja tocando um trecho e a terça esteja com o trombone 1, então, provavelmente este naipe é que terá que abaixar um pouco a afinação.

Esse conhecimento harmônico é fácil, você precisa conhecer os acordes e saber qual a função de cada nota. A maioria das músicas compostas para banda sinfônica na atualidade, trabalha com acordes maiores e menores, o que nos facilita descobrir o que estamos tocando.

Um outro bom treino para afinação, é tocar corais. Você consegue achar facilmente na internet corais de Bach ou de qualquer outro compositor. O importante é que tenham acordes, tocados lentamente, para que possam ser ouvidos com calma e corrigidos sem maiores dificuldades. Nós precisamos treinar ouvir o som afinado, para que em passagens mais rápidas, o som afinado esteja no ouvido e fique mais fácil a correção.

Uma outra dica para treinar o ouvido é o diapasão de garfo. Ele toca a nota lá e, se você treinar, conseguirá gravar o som do lá e fazer a relação com o som das outras notas. Além de aplicativos diversos como: Ouvido perfeito, Functional Ear Trainer, The Ear Gym e alguns outros de sua preferência. Só que não adianta só instalar o aplicativo ou comprar o diapasão, você precisa treinar!

Star Wars no órgão de tubos:

https://www.youtube.com/watch?v=1k5JJmpphKg

Quarteto de trombone tocando “Jesu meine freud”, um coral de Bach:

https://www.youtube.com/watch?v=xnRXhiC5SMA

Epic Low Brass tocando “The rains of Castamere”, do Game of Thrones, ouçam a vibração:

https://www.youtube.com/watch?v=z9WAH0ZaKTw