Infelizmente, estamos vivendo um momento dramático da nossa história como brasileiros. Hoje (9), na véspera do dia das mães, o número de infectados pela covid-19 chega a 147 mil e as mortes já passam das 10 mil.

Neste verdadeiro cenário de guerra, nossa principal defesa é ficar em casa. Mas junto com isso, vem uma renúncia de alguns hábitos e práticas, que neste momento seriam perigosos demais para nós, como nos reunir para tocar e para assistir um com concerto.

Até segunda ordem, as aglomerações devem ser evitadas. Mas podemos nos reunir virtualmente para apreciar música boa e matar um pouco da saudade, enquanto esperamos por um momento seguro par voltar a nos reunir.

A Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal de São Paulo disponibilizou as 9 Sinfonias de Beethoven em concertos recentes gravados ao vivo. Lá você encontrará as seguintes peças:

Sinfonia N.º 1, em Dó maior, op. 21

A Sinfonia Nº 1, em Dó maior, traz a tonalidade que, na tradição austríaca, festejava os grandes eventos. Ainda que os perfis de Haydn e de Mozart possam ser ouvidos, a energia de Beethoven já aparece no primeiro grupo temático do primeiro movimento, culminando na vivacidade quase preciosista no último. Embora o terceiro movimento tenha sido nomeado Minueto, trata-se, já, de um Scherzo beethoveniano.

Sinfonia N.º 2, em Ré maior, op. 36

Composta em 1802 – ano em que Beethoven expôs, no Testamento de Heiligenstadt, sua angústia causada pela surdez – a Sinfonia Nº 2 nos faz ouvir um dos traços característicos de sua poética: em seu segundo movimento há a transformação de caráter de temas que se iniciam meditativos e, no decorrer do desenvolvimento, se tornam obsessivos e densos.

 

Sinfonia N.º 3, “Eroica”, em Mi bemol maior, op. 55

Em 1804, a Sinfonia Nº 3 provocou um abalo no meio musical: com uma duração que chegou ao dobro de sua primeira sinfonia e de densidade e dificuldade técnico musical inauditas, a Eroica instituiu a dimensão ideológica na música orquestral. A dedicatória a Bonaparte foi retirada quando este se coroou imperador e a decepção do compositor expressou-se na intensa Marcha Fúnebre (segundo movimento), “à memória de um grande herói”.

Sinfonia N.º 4, em Si bemol maior, op. 60

A Sinfonia Nº 4, de 1806, com uma enigmática introdução lenta, traz de volta forças mais pacificadas e ao gosto clássico, explorando, ao mesmo tempo, o lirismo e a vitalidade. O segundo movimento, Adágio, contrasta o cantábile da melodia principal com um acompanhamento rítmico delicado e obstinado, abrindo dois planos de desenvolvimento distintos para o ouvido.

Sinfonia N.º 5, em Dó menor, op. 67

Em 1808, são estreadas a 5ª e a 6ª sinfonias, talvez as mais conhecidas do público, ao lado da 9ª. A 5ª, em Dó menor – tonalidade cara ao compositor para os discursos graves e passionais – é construída com um motivo obsessivo de quatro notas, presente nos quatro movimentos: “Assim o destino bate à porta”, teria respondido Beethoven a Schindler em um diálogo pouco verossímil, mas famoso na época. Por meio de um minucioso caminho de desenvolvimento temático nos movimentos iniciais, o centro de gravidade da obra é deslocado para seu último movimento, que encontra sua plena expansão no homônimo Dó maior.

Sinfonia N.º 6, “Pastoral”, em Fá maior, op. 68

A 6ª Sinfonia, conhecida como Pastoral, difere do modelo tradicional e se apresenta como um questionamento estético: por ter uma narrativa explicitada nos títulos de seus cinco movimentos e por trazer procedimentos descritivistas barrocos (pássaros, sons de riacho, tempestade e outros), seria esta uma sinfonia (“música pura”) ou um poema sinfônico romântico avant la lettre? Qualquer que seja a resposta, o que encontramos nesta sinfonia são temas pastoris e tradicionais tramados em louvor à natureza, símbolo de força vital para a cultura alemã.

Sinfonia N.º 7, em Lá maior, op. 92

As sinfonias Nºs 7 e 8 são de 1812. A 7ª tem na dimensão rítmica sua ideia central. O mais famoso dos movimentos, o segundo, desenvolve um motivo rítmico de marcha fúnebre sobre o qual linhas melódicas tecem um delicado contraponto. O quarto movimento, elogiado por Wagner como sendo a “apoteose da dança”, encerra com êxtase a obra.

Sinfonia N.º 8, em Fá maior, op. 93

As sinfonias Nºs 7 e 8 são de 1812. A Sinfonia Nº 8, tão breve quanto a 1ª, encerra o conjunto dos 12 anos e homenageia o perfil clássico das sinfonias de Haydn e Mozart. Como que dizendo adeus ao século XVIII, esta sinfonia é a única cujo terceiro movimento é um verdadeiro Minueto e, no lugar do Andante do segundo movimento, ouvimos uma paródia bem-humorada de um cânone dedicado a Maelzel, o inventor do metrônomo, que se faz presente na marcação em staccato dos sopros.

Sinfonia N.º 9, “Coral”, em Ré menor, op. 125

Em 1824, com a 9ª Sinfonia, o pensamento sinfônico de Beethoven chega a seu ápice, com a introdução da poesia de Schiller – “Ode à Alegria” – no contexto da música pura. Com o deslocamento do Adágio para o terceiro movimento, esta sinfonia (como a 5ª) tem seu caminho direcionado ao último movimento, quando solistas e coro desenvolvem alguns dos temas do poema, selecionados pelo compositor: fraternidade, amizade, natureza, heroísmo e amor universal. A partir de uma melodia muito familiar e essencial no seu caráter de canção popular, um monumento sonoro se ergue paulatinamente diante de nós, envolvendo-nos e incluindo nossa sensibilidade em uma das maiores celebrações ao espírito humano e à liberdade que a música conhece.

 

(Participação do Coro Lírico Municipal de São Paulo, Coral Paulistano Mário de Andrade e Solistas)

Maestro: Roberto Minczuk

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