“Certa vez dei um curso para um grupo de senhoras, que pareciam se interessar apenas pela vida doméstica. Então, pedi a elas que levassem para as aulas espanadores, panos de chão, vassouras… e que repetissem os movimentos que costumavam fazer ao limpar a casa, procurando observar a maneira como se moviam…”

Klaus Vianna, no livro A Dança

Klaus Vianna falava da observação dos movimentos cotidianos no sentido de que sem a consciência desses movimentos e da maneira como costumamos fazê-los, é muito difícil avançar na direção de movimentos mais elaborados.

Klaus foi um dos maiores gênios da dança brasileira, criador da técnica de consciência corporal no Brasil, tendo seu trabalho fortemente marcado pela ponte entre a dança e o teatro. O objetivo de seu trabalho era mostrar que seria possível também utilizar o corpo para a comunicação e expressão.

Aliás, este é o aspecto distintivo da dança contemporânea, em relação a outros estilos de dança: investigar nossa essência individual por meio do corpo. Somos convidados a vasculhar cada detalhe dos movimentos, para descobrir formas de expressar nossas emoções, dúvidas e pensamentos.

“Somos criados dentro de certos padrões e ficamos acomodados aquilo”

A dança contemporânea foi desenvolvida em meados da década de 1950, como uma contraposição à hegemonia do Ballet Clássico, criando algo que não obedecesse regras e padrões de movimentos. Sua técnica é tão abrangente que não delimita estilos de roupas, músicas, espaço ou movimentos. Não existem nesse estilo corpos ideais e sim um corpo multicultural, que bebe de várias referências.

Não se sabe ao certo quem foi o precursor dessa dança, alguns estudos apontam que já  em 1912 Vaslav Nijinsky, bailarino clássico e coreógrafo russo, apresenta nos palcos do Théâthre du Châtelet, em Paris, a coreografia “O Fauno” que possuía códigos e movimentações inovadoras, polêmicas por não ter relação com a dança clássica que até então era a única considerada dança.

“O Fauno” de Nijinsky

Contudo, alguns pesquisadores vão dizer que a dança contemporânea decorre dos experimentos de artistas pós-modernos do movimento “Judson Dance Theater”, na década de 1960, nos Estados Unidos. De qualquer forma, o movimento de popularizou e foi alvo dos esforços de estudiosos dessa prática como, Martha Graham, Doris Humphrey, Isadora Duncan e Loie Fuller.

Justamente por essa multiplicidade e multi regionalidade da dança contemporânea, é que alguns pesquisadores fazem distinção entre a dança contemporânea brasileira, americana, canadense e europeia.

No Brasil a dança contemporânea teve o início de seu desenvolvimento em 1952 quando Klauss Vianna e Angel Vianna  mineiros, coreógrafos, professores e bailarinos abriram sua primeira escola de ballet em Belo Horizonte e no mesmo ano Klauss publica seu texto-manifesto: “Pela Criação de um Ballet Brasileiro”, no qual ele evidencia a necessidade de assim como nos ballets russos, desenvolver um Ballet de acordo com a cultura local e seus recursos. A partir desse momento surgiram pesquisas corporais e estudos dessa nova dança com seus bailarinos com o tema central: consciência corporal.

“Para ser entendida universalmente é necessário que a obra de arte seja sincera e tal sinceridade somente se consegue quando surge de todos os elementos culturais que contribuíram para a formação do artista.”

 VIANNA Klauss. Pela criação de um ballet brasileiro.

Pensando na dança contemporânea a partir do conceito de contemporâneo, podemos estudá-la como algo que mantém o olhar fixo no tempo, algo que atualiza-se e cria-se a partir dos contextos atuais, sejam eles da dança, dos sentimentos, da rotina, da vida. Essa dança dá liberdade de criação para todos os corpos, criações, estudos e experimentos.

COLKER Débora. Rota
COLKER Débora. Rota

A Dança Contemporânea para balizas e balizadores

Para uma Baliza ou Balizador, que tem como trabalho principal a criação de movimentos, a dança contemporânea é uma grande aliada no desenvolvimento de performances inovadoras e que, além de atualizar-se com o contexto atual do tempo/espaço, também atualiza-se com as possibilidades corporais e fisiológicas de quem dança, harmonizando a criação com a execução de movimentos confortáveis e ao mesmo tempo desafiadores assim que entram em contato com o público.

A flexibilidade desta técnica possibilita a criação de coreografias com base em diferentes estilos de música, que no contexto das bandas e fanfarras é fundamental, uma vez que os repertório de competição das corporações pode facilmente passar por um rock na peça de entrada, uma ópera na peça de confronto e uma música popular na saída da banda.

Além disso, a criação de movimentos coreográficos pode surgir a partir de muitos outros elementos, como por exemplo, criar a partir de formas geométricas, de letras, elementos da natureza, técnicas de dança, sentimentos, histórias, músicas entre outras.

Assim como no Lyrical Jazz, que já comentei em colunas anteriores, a única regra é expressar os sentimentos e intenções dos bailarinos por meio de movimentos calculados, bem executados, com leveza, suavidade e, principalmente paixão.

Laura Urbaniak – Baliza, Professora e Colunista
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