Pirajú, Setembro de 1997.

Lá aconteceu um daqueles grandes concursos de fanfarras, que entram para a história. Na categoria sênior estavam presentes a Fanfarra Águias Negras, do maestro Leandro, a Fanfarra Municipal de Atibaia, sob a regência do maestro Rogério Brito, tínhamos a Famutre, que era regida por Eduardo Stella (Frigideira) naquele momento, a Fanfarra Sion com o Marquinhos, que não poderia faltar e, pra finalizar, nós com a Fanfarra João de Deus, sob a regência do Moita.

Eu ainda tocava cornetão e fazia 1ª voz junto a um grande amigo, que não faltava nos ensaios, porém, ele faltou no dia do concurso. Sim, ele faltou no dia do concurso e até hoje não sei o motivo. Tudo bem, ele sabia da importância daquele momento para o grupo e o motivo deve ser justo. A consequência é que fui para a final do campeonato estadual fazendo 1ª voz sozinho, com muitas melodias que viraram solo e tocando contra grandes fanfarras da história. Se eu estava nervoso por isso? Não.

No João de Deus ensaiávamos muito, o nível estava lá em cima e ainda estávamos crescendo. Sabíamos que seria difícil até ficar entre as três primeiras, mas todos gostavam muito da competição. Quase todos. Naquela época eu estava com 14 anos e não estava “tããão” ligado assim em concursos. Eu nem sabia quem ia concorrer com a gente. A verdade é que eu gostava de tocar, de fazer música e gostava mais ainda do ambiente. Por um lado, isso pode parecer ruim, que não ligava para o compromisso, mas neste caso foi ótimo.

O Juninho, que hoje é o Maestro da Orquestra de Metais Armando de Arruda Pereira, era nosso “faz tudo” na época. Ele escrevia os arranjos, nos ensinava a tocar e até falava o que tínhamos que fazer nas músicas. O Juninho estava preocupadíssimo, inquieto, me perguntando se estava tudo bem e eu tranquilamente respondia que sim, estava tudo certo. Já na avenida, durante a concentração, ele reúne a fanfarra e diz: “Gente, quando tiver melodia no cornetão, toca um pouco menos, lembrem-se que ele está sozinho”. Eu olhava com uma cara de dúvida, por que eles tinham que tocar menos? Eu poderia tocar mais, não tinha problema. Eu sabia tocar, tinha ensaiado bastante, adorava as músicas, não era necessário mudar nada. Mas, se ele estava falando, sem problemas.

Fomos lá e tocamos muito bem, inclusive eu. Não tinha do que reclamar, todos saíram felizes. Na hora do resultado, a fanfarra inteira se reuniu, todos ansiosos. Quase todos. Eu fui para o ônibus, pois estava cansado, a viagem tinha sido longa, chegamos no dia anterior, dormi muito mal e eu queria descansar um pouco. Ficamos muito tempo de pé.

Resultado: Águias Negras em 5°, Fanfarra de Atibaia em 4°, Famutre em 3°, João de Deus em 2° e Sion em 1°, com os incríveis 140 pontos, nota máxima em tudo, campeã incontestável. Voltamos felizes para casa, com a sensação do dever cumprido, o segundo lugar era uma vitória, pois ganhamos de grandes corporações.

Em muitos momentos de nossas vidas, teremos um concurso importante, uma prova mais difícil, aquele teste para entrar em uma orquestra ou até mesmo um solo, em que todos os olhos estão sobre nós. O nervosismo sempre bate na porta, em alguns mais e em outros menos, mas ele está lá, para nos deixar atentos. O que não pode acontecer, é deixar que ele tome conta, que o nervosismo seja o dono da situação. Precisamos estar tecnicamente bem preparados e psicologicamente tranquilos para realizar tudo o que queremos.

Naquele concurso de Pirajú, eu não tinha a menor noção da grandiosidade do evento, de como aquilo atingia as pessoas envolvidas, de todo o trabalho que dava fazer uma fanfarra e levá-la para a avenida. Eu só queria tocar, fazer música e estar com aquelas pessoas. O resultado do concurso era o que menos me importava. Acho que essa falta de noção do perigo, fez com que eu não ficasse nervoso, melhorando meu desempenho.

A preparação é uma das coisas mais importantes. Não importa o que você vai fazer, se prepare! Pode ser uma prova na escola, um seminário, uma entrevista de emprego ou um concurso de bandas. Esteja preparado. No momento de uma apresentação, você já deve saber tudo o que precisa fazer, não é o momento de perguntar se a nota é bemol ou natural, isso já precisa estar resolvido.

Se você vai apresentar um seminário da escola, alguns costumam decorar o conteúdo e isso é ruim. A melhor coisa é ler e entender. Pois se você decora e esquece uma palavra, é muito difícil retomar o raciocínio. Na música é a mesma coisa. Você precisa conhecer a música para não errar a entrada depois de uma longa pausa. Precisa saber qual o contexto da música que está tocando, se é um momento de maior tensão, de relaxamento ou de alegria. Essa preparação e entendimento da música vão fazer o nervosismo ficar longe, pois não importará o que os outros estão pensando, o que importa é a sua interação com a música e com os seus companheiros de banda.

Agora você deve estar pensando: O que o título desta coluna tem a ver com tudo o que foi dito? Bem, no ano de 2012 o Corinthians estava perdendo a final da Libertadores para o Boca Juniors, lá na Argentina, com La Bombonera lotada, uma pressão gigante. O técnico Tite, do Corinthians, resolve colocar o atacante Romarinho, de 21 anos, que no primeiro toque na bola, calmamente encobre o goleiro e faz o gol de empate. Sorte? Talvez. Mas ele estava preparado para entrar e para jogar. Agora… Talvez ele também não tivesse tanta noção da grandiosidade daquele jogo.

João de Deus em Pirajú, entrada Up the Street e primeira peça Jurassic Park:
https://www.youtube.com/watch?v=SrJXe3rSKrs

Quarteto de trombones Bones Apart tocando um trecho da música The Stars and Stripes Forever:

A tranquilidade do German Brass, Hungarian Rhapsody n°2:

E o gol do Romarinho:

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