Você sabe me dizer quem é o melhor trombonista que já viu tocando em banda? Ele ainda toca? Por que ele é o melhor? Claro que se você perguntar isso para muitas pessoas, cada uma vai dar uma resposta, eu vou dar a minha e vou dizer os motivos.

O nome dele é Mauro Cardoso e hoje toca na Orquestra de Metais e Percussão Armando Arruda Pereira.

Como dizer que uma pessoa é melhor que a outra? Ainda mais quando o assunto é música, é subjetivo demais! Notas por segundo? Quem mexe mais o braço? Outros preferem quem toca mais agudo, mas meu critério para escolher o Mauro foi outro.

Quando comecei a tocar cornetão (há muito tempo atrás (muito!)), na Fanfarra da EMPG João de Deus Cardoso de Mello, a escola em que estudei, minhas referências eram as pessoas que já tocavam na fanfarra, eu não tinha acesso a discos, fitas, CDs, na verdade eu não tinha nem telefone fixo em casa, isso era coisa de rico e eu morava no Grajaú[1], não dava pra comprar, então eu precisava ouvir atentamente as pessoas que estavam perto de mim.

Logo que entrei na fanfarra, o Maurão tinha acabado de sair e só aparecia no ensaio de vez em quando, mas eu via toda a movimentação em torno dele sempre que botava o pé na escola, e isso me chamava a atenção. Comecei a ficar atento toda vez que ele pegava um instrumento, eu queria entender qual o motivo de tanta idolatria.

Na primeira vez, ele tocou poucas notas, duas para ser mais exato, um si bemol grave e um si bemol agudo, sem nem aquecer! Vi que tinha um som diferente, mesmo tocando nos mesmos instrumentos que nós. Eu precisava saber que mágica era aquela, eu tinha que ouvir ele tocando mais vezes. Comecei a pegar emprestadas fitas VHS (falei que era muito tempo atrás) com concursos antigos do João de Deus e fui entendendo.

Ele já era diferente segurando o instrumento, ele tocava Eufônio, o nosso Bombardino de pisto e gatilho, mas tocava com a mão invertida, mão esquerda no pisto e mão direita no gatilho.

A primeira música que assisti foi El presidente, não vou saber dizer qual o concurso, talvez o da Avenida Ipiranga. Foi então que no meio desses concursos do João de Deus, encontrei um concurso da FIPRIMA, Fanfarra Independente Primeiro de Maio, que teve curtíssima duração, porém, deixou esse registro que iria mexer comigo. Nesta fita eles tocavam a música Endless Love, como fanfarra com 1 pisto e lá estava o Mauro, na ponta, com a câmera praticamente dentro da campana, o único tocando Eufônio e dono de uma parte importante da melodia. Foi ali que eu entendi tudo.

Não era a quantidade de notas, não eram os agudos e nem os graves. Era a musicalidade!

Um fraseado maravilhoso, uma afinação impecável e o som mais bonito que eu já tinha ouvido. Foi ali que entendi qual era o caminho para ser músico, eu deveria em primeiro lugar, fazer música!

Depois de assistir a fita até gastar e ter que devolver para o dono rebobinada[2], sempre que o Mauro aparecia no ensaio eu ficava de olho, até que um dia, o grande Moita, nosso maestro naquele período, pediu para o Mauro dar uma aula para alguns alunos e eu fui escolhido para participar.

Muito feliz e ansioso, ouvi atentamente cada palavra que ele dizia. Mauro nos passou exercícios de respiração, que faço até hoje, falou sobre a importância do ar para podermos tocar, mas principalmente sobre a qualidade do som. Disse que precisaríamos sempre trabalhar para encontrar o melhor som possível, pois quando alguém nos ouve tocar, antes da articulação, da ligadura, da técnica ou de qualquer outra coisa, as pessoas ouvem o som.

Desde então, essa é a minha busca pessoal, que levo também para as aulas com meus alunos. Para isso, traço vários caminhos em busca de um som que agrade principalmente ao aluno. Como isso não é uma coisa exata, nós precisamos primeiro entender qual o som que nós gostamos mais. O som de um trombonista como o Christian Lindberg é completamente diferente do som do Alain Trudel. Os dois são ótimos, mas não são iguais.

Termos boas referências é essencial para conseguirmos um bom som, até porque, podemos mudar nossa maneira de tocar durante a música. Um trecho mais agressivo não é tocado da mesma maneira que um trecho suave. Podemos na mesma música usar um som mais brilhante e um som mais aveludado. Não se toca da mesma maneira Beethoven e Mahler, são estilos diferentes, épocas diferentes, o tamanho da orquestra era diferente. Por isso, quanto mais referências você tiver, melhor para poder se encaixar com o que a música pede.

Gosto é muito pessoal, mas nota longa não. Pratique! As notas longas servem para deixar o som mais consistente, mais limpo e serve também como um momento para ouvir com calma o que você está tocando e se está no caminho certo para encontrar o som que você busca. Ouça bastante música, de vários estilos diferentes, procure conhecer até os estilos que a princípio você não gosta, grupos de qualidade, orquestras, instrumentista solo, tem muita coisa boa disponível.

Deixo aqui alguns links sobre o que falei. Primeiro, o áudio de um CD gravado pelo Low Brass da Chicago Symphony Orchestra, tocando trechos de peças orquestrais:

O trombonista Bill Watrous, tocando “No More Blues”, o nosso Chega de saudades:

 

Finalizando, a FIPRIMA tocando Endless Love, um clássico! Infelizmente a gravação não é 4k, mas os ouvidos atentos entenderão a história.

Abraços!!!

[1] Quem não é de São Paulo, joga no google imagens pra sentir o drama.

[2] Essa não vou explicar, pergunte para alguém mais velho.

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