A Ordem Unida é um dos aspectos mais trabalhados pelas bandas e fanfarras. Os movimentos sincronizados, postura padronizada e marcha, são elementos herdados da tradição militar, assim como o pelotão de bandeiras e os uniformes. Na verdade, a Ordem Unida é o fator que distingue as bandas marciais, dos outros tipos de conjuntos musicais. 

Contudo, algumas corporações podem enfrentar algumas dificuldades para realizar adequadamente a Ordem Unida, e os principais motivos são a falta de experiência do grupo ou a falta de prática, e às vezes as duas coisas juntas.

Neste artigo vamos analisar os diferentes aspectos da Ordem Unida, desde os comandos, até a marcha. Vamos analisar o uso da ordem unida na história, as adaptações feitas para o trabalho nas bandas e fanfarras e algumas sugestões sobre como aprimorar essa parte do trabalho no sua banda.

Mas afinal, pra que serve a Ordem Unida?

Imagine que você é um grande comandante militar que recebeu ordens de levar suas tropas para outra posição. Porém, você tem pouquíssimo tempo e não pode deixar nenhum soldado para trás. O que você faria?

Não, colocar todo mundo pra correr não é uma opção. A saída encontrada pelo militares para resolver esse problema, foi desenvolver um conjunto de regras para o deslocamento ordenado das tropas. Com essas regras, manobrar e movimentar os pelotões tornou-se tão simples quanto gritar um comando. Aliás, os comandos são um dos principais elementos da Ordem Unida, dando controle total sobre os movimentos dos soldados.

Os primeiros registros da Ordem Unida, ainda em seu formato rudimentar, datam da Grécia Antiga, nas famosas falanges gregas. Inscrições sumérias (meio do terceiro milênio a.C.), já falavam sobre as falanges, e elas se tornaram uma prática comum nos campos de batalha e  tornam-se famosas, em batalhas como a de Maratona, Plateia ou Termópilas. 

A marcha foi também um aspecto distintivo das legiões romanas. No tratado “De Re Militari” sobre a guerra no Império Romano, Publius Flavius Vegetius Renatus reúne diferentes princípios militares, incluindo métodos de apresentação como a marcha:

“A constante prática da marcha conjunta e rápida. Nada é mais importante na marcha ou na fila do que a necessidade de manter seus postos com exatidão grandiosa. Para as tropas que marcham de maneira irregular e desordenada sempre há grande perigo de derrota. Elas devem marchar com o passo militar comum vinte milhas em cinco horas de um verão, e com o passo completo, que é mais rápido, vinte e quatro milhas no mesmo número de horas. Se passarem deste ritmo, não mais estão marchando, mas correndo, e nenhuma frequência certa pode ser fixada.”

O que Vegetius destaca neste trecho do tratado, é que a Ordem Unida é acima de tudo um recurso, que quando somado a disciplina exigida dos soldados, permite a construção de condutas padronizadas, fundamental para o controle sobre os combatentes e eficiência militar. Mas também é fundamental no desenvolvimento de um senso de coletividade e de corpo unificado, onde todos voluntariamente se dedicam a atividade que deve demonstrar por si só a própria disciplina militar.

O Manual de Ordem Unida do Exército Brasileiro lista alguns objetivos básicos da Ordem Unida, entre eles está o de “Desenvolver o sentimento de coesão e os reflexos da obediência, como fatores preponderantes na formação do soldado”, indicando que a Ordem Unida também tem objetivos psicológicos, como é destacado no mesmo manual em uma sessão sobre disciplina:

“Exercícios que exijam exatidão e coordenação mental e física ajudam a desenvolver a disciplina. Estes exercícios criam reflexos de obediência e estimulam os sentimentos de vigor da corporação de tal modo que toda a unidade se impulsiona, conjuntamente, como se fosse um só homem.”

 

e ainda:

“A Ordem Unida não tem somente por finalidade fazer com que a tropa se apresente em público com aspecto marcial e enérgico, despertando entusiasmo e civismo nos espectadores, mas, principalmente, a de constituir uma verdadeira escola de disciplina e coesão. A experiência tem revelado que, em circunstâncias críticas, as tropas que melhor se portaram foram as que sempre se destacaram na Ordem Unida. A Ordem Unida concorre, em resumo, para a formação moral do soldado. Assim, deve ser ministrada com esmero e dedicação, sendo justo que se lhe atribua alta prioridade entre os demais assuntos da instrução.”

Ou seja, através da Ordem Unida, as tropas apresentam sua eficiência e esta é observada por meio de três indicadores: o moral, superando as dificuldades e determinação em atender aos comandos; a disciplina, pela pronta resposta aos comandos; o espírito de corpo, pela apresentação coletiva e pela uniformidade na prática dos exercícios; e proficiência, pela execução precisa dos movimentos.

Praticando a Ordem Unida

Você já deve ter percebido que só a prática vai desenvolver as habilidades físicas, motoras e psicológicas no grupo. Assim como a música e a dança, a Ordem Unida é uma ferramenta para banda, uma habilidade coletiva que deve ser exercitada, independente de competições e apresentações.

Por tanto, a banda e o corpo coreográfico, precisam fazer exercícios de Ordem Unida todas as semanas. Na intenção de atingir certos níveis de qualidade, que deverão ser monitorados pelo responsáveis artísticos da banda.

Acolha os novatos, explique e tenha a certeza de que entenderam

Dissemos que um dos motivos para um baixo desempenho na Ordem Unida, pode ser a falta de experiência do grupo ou de alguns membros recém chegados. As bandas e fanfarras são instituições de ensino de música e dança, e por isso ter gente nova sempre chegando, faz parte do trabalho.

Forme pequenos grupos de recém chegados para ensiná-los os movimentos, comandos, a postura e tudo o mais que ele precise saber sobre essa atividade. Acredite, as pessoas vão se sentir muito mais envolvidas na banda, se não ficarem perdidas ou até passando vergonha na hora da marcha. 

Envolva os alunos mais velhos nisso

Ensinar é uma ótima forma de consolidar os conhecimentos que temos. Quando os alunos com mais tempo na banda, ensinam os recém chegados, eles têm a oportunidade de relembrar e aperfeiçoar o próprio trabalho.

Como mencionamos no início, a Ordem Unida serve para deslocar tropas. Para isso ser possível, os militares desenvolveram uma linguagem com comandos simples, tanto para o comandante quando para os soldados. 

A seguir listamos os aspectos técnicos mais exigidos em competições de bandas e fanfarras no Brasil.

Cobertura

Nas tropas do exército ou nas bandas marciais e fanfarras, os grupos vão se organizar em fileiras (filas) e linhas. A cobertura é o alinhamento da fila e também o distanciamento entre os componentes. Normalmente, a distância padrão é medida por um braço à direita e à frente, embora nas bandas essa distância possa ser um pouco maior.

O objetivo aqui é manter essa distância durante todo o deslocamento e quando a banda parar. Isso deve ser praticado sempre de velocidades mais baixas até as mais altas, que no caso das bandas marciais costuma estar entre 120 Bpm e 140 Bpm. 

Use um metrônomo para ter certeza que a banda está praticando em velocidades constantes, sem deixar o andamento cair. O metrônomo pode oferecer uma precisão muito importante para quem vai tocar enquanto marcha.

Alinhamento

A grande dificuldade em relação ao alinhamento horizontal das linhas, é quando a banda está em movimento, porque o passo de cada pessoa varia de tamanho, principalmente em função de sua altura. Se não houver um ‘passo padrão’, manter o alinhamento pode ser muito difícil. Falaremos mais sobre isso no tópico sobre marcha.

A visão periférica tem um papel fundamental no alinhamento. Isso porque é recomendado que os componentes não olhem para os lados e mantenham seus olhos fixos no nuca do componentes a sua frente. Não devem faltar histórias de trompetistas e trombonistas que machucaram a boca depois de bater a campana no instrumento do componente da frente, que parou de repente. Para evitar isso, precisamos estar atentos à linha que estamos, se estamos alinhados, e se ela parou ou  não.

Alinhamento Diagonal

O alinhamento diagonal, é um ‘segredinho’ para manter o alinhamento e a cobertura. Consiste em cada componente se orientar em função do componente nas suas diagonais. Normalmente buscamos pelo componente na diagonal direita, ele representa um eixo para sua posição. 

O perigo dessa abordagem, é que os outros componentes podem estar mal posicionados também, causando um efeito em cadeia. Mas sem dúvida é uma ótima forma de conferir sua posição, principalmente quando os instrumentos estão levantados, o que dificulta a visão periférica lateral.

Garbo

O garbo é frequentemente associado aos movimentos dos braços durante a marcha, mas ele vai além disso. Entre as bandas e fanfarras o garbo diz respeito a postura da banda. 

Ombros caídos, olhar para baixo e não levantar os pés na marcha (dependendo do estilo de marcha adotada pela banda), nada disso é desejado na apresentação de uma banda marcial. 

O que se espera é um orgulho vibrante, dignidade, garra, bravura, e essas coisas são transmitidas por nossa linguagem corporal. Uma banda com um bom garbo, intimida os oponentes só de estar em forma, esperando para tocar.

Para evitar as cabeças baixas e ombros caídos, os componentes devem ser instruídos a alinhar a sua coluna vertebral a um ponto atrás da orelha. Assim, o pescoço não penderá e com o pescoço bem posicionado os ombros se abrem e o peito se expande.

Também se recomenda olhar para um ponto distante no horizonte, o que nos obriga a levantar um pouco o nariz. Isso do ponto de vista da linguagem corporal que mencionamos antes, transmite orgulho e segurança tanto para quem assiste como para quem toca ou dança.

Marcha

A marcha é o motor do deslocamento da banda, ela ditará o andamento da música e a velocidade de deslocamento delas. Hoje em dia existem diferentes estilos de marcha, alguns que adaptamos das bandas americanas, mas os princípios continuam os mesmos.

Como vimos a Ordem Unida foi pensada para o deslocamento de tropas. Por tanto, o ritmo dos passos e a distância entre eles é fundamental se quisermos manter o tal deslocamento ordenado, ordenado.

A marcha com grande elevação dos joelhos já não é mais tão utilizada entre as bandas brasileiras. O padrão mais comum por aqui, é o que os americanos chamam de “Feet Roling”, porque existe pouquíssima flexão de joelhos e se assemelha muito a um caminhar suave. 

O problema é que, como mencionamos no item sobre cobertura, os passos variam em função da altura da pessoa. Uma saída possível é aproximar os passos o máximo possível, reduzindo o efeito da diferença no tamanho dos passos naturais de cada um.

Os americanos também utilizam um apoio constante na região frontal dos pés, ao invés do apoio dos calcanhares como fazemos por aqui. Com essa mudança no ponto de apoio, a banda se move mais suave, e ocorrem menos trepidações que atrapalham os músicos, aumentando assim a qualidade do som produzido pela banda.

Comando dos Exercícios

Vimos que a essência da Ordem Unida é fazer com que o grupo desenvolva senso de corpo, e seja capaz de reagir imediatamente aos comandos dados, sempre consciente, envolvido e concentrado.

É recomendável que os exercícios de Ordem Unida sejam sempre comandados por um membro mais experiente, ou responsável contratado para isso. Caberá a essa pessoa dar os comandos de forma alta e clara, e garantir que todos os componentes compreendem o comando e sabem o que fazer a seguir.

Planeje os exercícios com antecedência, levando em conta os aspectos avaliados nas competições. Esse é um bom momento para usar as planilhas do último concurso que a banda participou. As críticas e notas da planilha podem orientar as melhorias que devem ser feitas na Ordem Unida.

Evite exercícios com desgaste físico exagerado, no sol sem proteção ou em qualquer outra condição que torne o exercício desconfortável. Escolha sempre locais arejados, com fácil acesso a água.

É absolutamente condenável que se cause qualquer constrangimento aos componentes, expondo suas inabilidades ou o colocando em situação menosprezada. O intuito dos exercícios é formar um corpo, e não arrancar partes dele. Lembre-se de manter um grupo de iniciantes ativo e encaminhe para lá as pessoas que precisam temporariamente de atenção.

Compartilhe este conteúdo com a sua banda e melhore os resultados da sua corporação na pista. 

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