Entre todos os conjuntos musicais que existem, a marcha é elemento distintivo das bandas e fanfarras, é o que as caracteriza. Mas marchar é apenas um dos elementos da Ordem Unida, mas dominá-la é imprescindível para um bom trabalho nas pistas.

Neste post vamos investigar essa prática, suas origens e sua função na música marcial brasileira e internacional. 

Andar marcando o passo

Marchar é basicamente um andar cadenciado, padronizado. Em francês, marchar (“Marcher”) significa “andar marcando passo”, ou contando o tempo.  Nas bandas marciais, começamos a marchar com a perna direita e contamos quatro tempos, marcando o primeiro e o terceiro tempos com a perna direita. Essa contagem ajuda a manter o  passos sincronizado e o ritmo da música.

File:Flavius vegetius renatus, de rei militari libri IV, parigi ...
Tomo De Re Militari

A marcha é a base da Ordem Unida, ela foi criada para o deslocamento uniformizado de tropas. A marcha foi um diferencial muito importante para as Legiões Romanas, como era chamado o exército do Império Romano, porque com a padronização do passo, dava pra prever melhor quanto tempo as tropas levariam para se movimentar de uma posição para outra.

Publius Flavius Vegetius Renatus, normalmente chamado apenas de Vegetius, escreveu no tratado De Re Militari sobre a guerra no Império Romano, o seguinte sobre a marcha: 

“A constante prática da marcha conjunta e rápida. Nada é mais importante na marcha ou na fila do que a necessidade de manter seus postos com exatidão grandiosa. Para as tropas que marcham de maneira irregular e desordenada sempre há grande perigo de derrota. Elas devem marchar com o passo militar comum vinte milhas em cinco horas de um verão, e com o passo completo, que é mais rápido, vinte e quatro milhas no mesmo número de horas. Se passarem deste ritmo, não mais estão marchando, mas correndo, e nenhuma frequência certa pode ser fixada.”

Perceba a preocupação com o tempo de deslocamento, que impacta inclusive o ritmo do passo, estabelecendo o ponto a partir do qual a tropa estaria correndo. Essa é uma preocupação que faz todo sentido nas bandas e fanfarras, principalmente para planejar a passagem da banda pela avenida, suas coreografias e afins. 

No caso das bandas marciais americanas, a marcha está no centro do planejamento das apresentações, que normalmente acontecem nos campos de futebol demarcado por jardas.

Marcha Americana

Nas bandas marciais americanas, tanto para as “Marching Bands” como nas “Drum and Bugle Corps”, a marcha está no centro do planejamento minucioso daquelas formações inacreditáveis que eles apresentam em campo. 

File:Marching Royal Dukes on the Field.jpg - Wikimedia Commons
Marching Royal Dukes

O padrão de marcha mais utilizado nos Estados Unidos é o “8 to 5”,  ou oito para cinco”, que significa que a banda deve se mover em um ritmo de cinco jardas do campo de futebol em oito tempos. Cinco jardas equivalem a aproximadamente quatro metros e meio. Isso quer dizer que cada passo terá mais ou menos 1 metro entre um calcanhar e outro da mesma pessoa. 

Essa velocidade deve ser observada durante todo o tempo da apresentação, porque a coreografia está combinada com a música. Existe até um tipo de “partitura para coreografia”, que eles chamam de Coordinate Sheet”. Ali basicamente eles combinam a coreografia com a música, assim cada componente sabe exatamente onde ele tem que estar no campo, em cada momento da música.

A Drill Designer's First Thoughts About Field Show Creation – Band ...
Marching Band Drill Design

Aqui no Brasil, como começamos com a perna direita, acabamos marcando o primeiro e o terceiro tempos do compasso na direita. No caso dos americanos, como começam com a esquerda, acabam marcando com a direita o segundo e o quarto tempos. É interessante como a banda parece dançar quando marcha. Isso acontece por que quando dançamos também marcamos o tempo dois e quatro. 

“Traditional Style Bands

O estilo da marcha nas bandas americanas, muda bastante conforme a região e a cultura de cada corporação. De um lado, temos as “Traditional Style Bands”, ou bandas de estilo tradicional, que são corporações formadas nas universidades conhecidas como HBCUHistorically black college universities”, que são instituições voltadas para o ensino superior da população negra americana. 

Southern's Human Jukebox performs the 'Whip,' 'Nae Nae' during ...
Human Jukebox – Souther University Marching Band

As principais apresentações dessas “marching bands”, acontecem no intervalo dos jogos de futebol, e elas tem a missão de entreter o público. Justamente por isso, o repertório dessas bandas normalmente é popular, e é acompanhado por coreografias ousadas e figuras impressionantes sendo montadas no campo pelos componente das bandas, enquanto tocam. 

Show Style March

Além dessa relação passo/distância, também existem diferenças sobre a elevação dos joelhos. A marcha com grande elevação dos joelhos, usada por essas bandas, é um estilo conhecido como “Show Style March” algo como “Marcha Estilo de Show”, nessa marcha, o joelho deve ser erguido, formando um ângulo de 90º com o tronco do corpo. Como exemplo desse tipo de bandas, temos a fictícia, Atlanta A&T do filme Drumline de 2002.

Feet Rolling

No caso das “Drum and Bugle Corps” temos uma marcha mais suave, porém mais acelerada. No “Feet Rolling”, ou rolando com os pés, em tradução livre, não há flexão dos joelhos durante a marcha, e um apoio constante no calcanhar e no peito do pé, o que dá mais suavidade e elegância na marcha, além de mais estabilidade para os instrumentistas tocarem enquanto marcham. 

Drum Corps International Shatters Attendance Records Nationwide ...

Esse também é o estilo utilizado pelas “Core Style Bands”, como a Blue Devils, Carolina Crown e Santa Clara Vanguard, que são bandas com propostas completamente diferentes das “Marching Bands”. Aqui o espetáculo visual e sonoro também é prioridade, mas nesse estilo vemos bandas mais performáticas, e com a presença da “color guard”. Assistindo a essas bandas é fácil esquecermos do aspecto marcial, mas ele está lá principalmente no deslocamento dos componentes para as formações que a banda está desenvolvendo.

Marcha das Bandas Marciais Brasileiras

Mas voltando a questão da perna esquerda, existe uma boa razão para os militares marcharem começando com a perna esquerda, e é um motivo muito simples: O Manual de Ordem Unida do Exército Brasileiro, diz que: as armas são empunhadas com com a mão direita, essa mão vai operar o gatilho das armas. Com isso, fica fácil perceber como romper com a perna esquerda seria, além de mais prático, mais natural para o soldado. 

Espadim Duque de Caxias

Na cerimônia de entrega dos Espadins aos aspirantes a oficiais da Academia Militar das Agulhas Negras, temos um bom exemplo. A bainha da espada fica do lado esquerdo do corpo do soldado. Para desembainhar a espada, o soldado usa a mão direita. Numa situação de combate, ele usuária a mão direita para atacar e a perna esquerda para dar apoio ao corpo durante o ataque, que é uma lógica parecida ao uso de armamentos modernos. A posição de tiro com um fuzil, por exemplo, normalmente será com a mão direita no gatilho e a perna esquerda a frente, dando apoio ao corpo. 

Canção da AMAN, Espadim 2015. - YouTube

Em geral, nas bandas marciais, os instrumentos costumam ser segurados também com a mão direita. O que nos permite fazer algumas comparações. Mas no Brasil, as bandas e fanfarras, em geral, estão mais conectadas a escolas e projetos sociais do que a organizações militares. Por isso, foi necessário desenvolver uma didática acessível à crianças e adolescentes. Não é difícil imaginar uma criança tendo mais facilidade de contar  o tempo começando a marchar pela perna direita e rompendo a marcha com essa mesma perna. Para quem é destro é mais intuitivo começar pela direita e demanda menos coordenação motora.

Banda Marcial toca para o Fund I - FREI CULTURA

É importante dizer que no passado, existia um maior cuidado com os aspectos marciais das corporações. Se você perguntar para qualquer veterano das bandas e fanfarras, eles vão dizer que na época deles, os aspectos marciais eram mais trabalhados, e se fuçar nos vídeos das bandas da década de 90, ainda é possível notar traços marciais bastante destacados, embora a musicalidade fosse inferior ao que vemos hoje em dia nas principais competições.

Na verdade, o rompimento com a perna direita é um símbolo da nossa tradição marcial, e seu compromisso com a educação e com a acessibilidade. Historicamente, as bandas e fanfarras brasileiras tiveram a função de criar pontes entre as periferias e um cultura musical, até então reservada às elites.

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here