Assim como no Brasil, o funcionamento das bandas marciais americanas varia muito, em função da grande diversidade de formatos e estilo que estão presentes entre as bandas dos Estados Unidos. Essas diferenças, no entanto, destacam as diferentes linhas culturais que orientam essas bandas, e que influenciaram e influenciam as bandas brasileiras.

Por toda a importância que as bandas marciais americanas passaram a ter no jeito brasileiro de fazer bandas, neste texto vamos dar um passeio pela cultura marcial americana, suas principais corporações, seus estilos e padrões técnicos. Descubra de onde vem algumas modas, estilos e como adaptamos o estilo americano aqui no Brasil.

Influência das bandas marciais americanas

As bandas marciais brasileiras, passaram a sofrer forte influência das bandas marciais americanas, no fim dos anos 1990, principalmente por causa do aumento crescente do acesso a internet no país, e a abertura da economia brasileira.

As influências vão desde o instrumental das bandas, até seus uniformes, coreografias que passaram a apresentar, técnicas instrumentais, repertório, e muitos outros aspectos que mudaram a sonoridade das bandas marciais brasileiras. Contudo, a tradição das bandas marciais americanas difere da brasileira em um aspecto fundamental: os campos de futebol.

Entre Campos e Pistas

A principal diferença entre as bandas marciais brasileiras e as americanas, é que por lá eles se apresentam em campos de futebol, divididos em jardas, enquanto no Brasil a ambiente natural das bandas marciais é em apresentações na rua, em formato de desfiles. Eventualmente eles também se apresentam em paradas, mas o grande trabalho das bandas americanas é elaborar e executar show nos campos. Seja no intervalo dos jogos ou em eventos exclusivos, quase tudo que essas bandas fazem envolvem o campo.

File:Ohio State Marching Band.jpg - Wikipedia
Ohio State Marching Band

As apresentações da maior parte das bandas marciais americanas é durante o intervalo dos jogos de futebol, o que ajudou as bandas a manterem-se integradas a uma outra paixão nacional, o futebol. E a partir daqui, podemos começar a traçar algumas diferenças entre as bandas. Afinal, as bandas que se apresentam nos intervalos dos jogos, pertencem a um estilo específico de banda, as “Marching Bands”.

Marching Bands

As “Marching Bands” são corporações normalmente bastante numerosas, ligadas a colégios, universidades ou instituições independentes. 

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Os números dessas bandas se justificam no desafio que elas enfrentam, ao encarar um campo de futebol cheio de espectadores e serem capazes de produzir som o suficiente para alcançá-los, além de formar figuras que os mantenham encantados, e nem sintam o intervalo passar. 

Instrumentação

Do ponto de vista instrumental, as “Marching Bands” são compostas por sessões de ‘metais’, como trompetes, trombones e tubas. Uma sessão para ‘madeiras’ como saxofones, clarinetes e flautas, e por fim, a seção de percussão, também chamada de “Drumline”, composta apenas por instrumentos da chamada percussão rudimentar, como caixas, bumbos e “tenors”. Nesse estilo de banda, não são usados os instrumentos da percussão sinfônica, afinal a banda está o tempo todo em movimento fazendo coreografias, essa instrumentação não faria sentido nesse estilo.

Uniformes

Os uniformes remetem as fardas militares, assim como aqui no Brasil. Uma diferença interessante é o calçado, que normalmente tem uma cobertura que eles chamam de “Spats” que proporciona uma fácil identificação dos pés da banda, aumentando a sensação de sincronia e contribuindo visualmente para a apresentação.

Beyond the Gridiron: Army Reserve engages fans, cadets, co… | Flickr

Coreografias e Marcha

As coreografias são o grande diferencial das “Marching Bands”. Nesse aspecto do espetáculo, a marcha está no centro do planejamento minucioso daquelas formações inacreditáveis que eles apresentam em campo. 

Ohio State marching band uses app to pull off amazing formations

O padrão de marcha mais utilizado nos Estados Unidos é o “8 to 5”,  ou oito para cinco”, que significa que a banda deve se mover em um ritmo de cinco jardas do campo de futebol em oito tempos. Cinco jardas equivalem a aproximadamente quatro metros e meio. Isso quer dizer que cada passo terá mais ou menos 1 metro entre um calcanhar e outro da mesma pessoa. 

Coordinate Sheet

Eles desenvolveram um tipo de partitura para coreografia, que eles chamam de Coordinate Sheet”. Ali basicamente, a coreografia está combinada com a música. Assim cada componente sabe exatamente onde ele tem que estar no campo, em cada momento da música.

Embora o padrão de distância das passadas não varie muito, o estilo da marcha muda bastante conforme a região e a cultura de cada corporação. 

“Traditional Style Bands

De um lado, temos as “Traditional Style Bands”, ou bandas de estilo tradicional. São corporações formadas nas universidades conhecidas como HBCUHistorically Black College Universities”, instituições voltadas para o ensino superior da população afro-americana. 

JSUvs.PVAMU112115 141 | Jackson State University Sonic Boom … | Flickr

Show Style March

A marcha com grande elevação dos joelhos, usada por essas bandas, é um estilo conhecido como “Show Style March” algo como “Marcha Estilo de Show”, nessa marcha, o joelho deve ser erguido, formando um ângulo de 90º com o tronco do corpo. Como exemplo desse tipo de bandas, temos a fictícia, Atlanta A&T do filme “Drumline”, e a banda da “Morris Brown College”, essa existe mesmo. 

Drum & Bougle Corps 

Feet Rolling

No caso das “Drum and Bugle Corps” temos uma marcha mais suave, porém mais acelerada. No “Feet Rolling”, ou rolando com os pés, em tradução livre, quase não há flexão dos joelhos durante a marcha, o que dá mais suavidade e elegância na marcha, além de mais estabilidade para os instrumentistas tocarem enquanto marcham. 

Rehearsal Shoes: Comfort vs. Function

Esse também é o estilo de utilizado pelas “Core Style Bands”, como a Blue Devils, Carolina Crown e Santa Clara Vanguard, que são bandas com propostas completamente diferentes das “Marching Bands”.

Aqui o espetáculo visual e sonoro também é prioridade, mas as principais apresentações deste tipo de banda não é durante o intervalo de jogos, e sim em competições específicas. Nesse estilo, vemos bandas mais performáticas, e com uma presença mais marcante da “color guard”. 

2017 DCI Champions Announced - Halftime Magazine
Blue Devils – DCI 2019

Diferente das “Marching Bands”, não existem instrumentos da família das madeiras nas Drum Corps. Em compensação, essas bandas criaram o “Pit”, que é onde estão os instrumentos de percussão sinfônica com tímpanos, marimbas, vibrafones, e até computadores, pianos eletrônicos e outros equipamentos que serão usados na apresentação. Isso acontece, porque é permitido o uso de recursos eletrônicos nas composições e arranjos que a banda irá apresentar. 

Isso confere uma sonoridade completamente diferente para as “Drum Corps”, enquanto as “Marching Bands” só podem usar recursos de marcha, as “Drum Corps” proporcionam experiências completamente imersivas nas coreografias e na música.

Assistindo a essas bandas é fácil esquecermos do aspecto marcial, mas ele está lá principalmente no deslocamento dos componentes para as formações que a banda está desenvolvendo.

Instrumental de Percussão

Um dos principais elementos da influência das bandas americanas nas corporações brasileiras foi a adoção de um instrumental de percussão desenvolvido especificamente para as necessidades das bandas marciais americanas, que como vimos acima, precisam produzir muito som.

File:Morton-Ranch-HS-Drumline-HEB-Parade-Nov-27-08.jpg - Wikimedia ...
Morton HS Drumline

Os instrumentos adotados foram as caixas tenores, chamadas de “Snare Drum”, que são caixas com peles em altamente tensionadas, que produzem muito som. Bumbos polifônicos ou “Bass Drum”, também chamados de “bumbos de afinação”, por serem de afinações diferentes, e diferenciando-se dos “fuzileiros”, bumbos com apenas uma afinação. E, finalmente, os “Tenors Drum”, que são os quadritons (com quatro peças), quintos (com 5 peças) ou sixtons (com 6 peças). Os aros duplos também são vistos nos “Tenors” de algumas corporações, e regra nas bandas que competem no DCI. 

Corpo Coreográfico

A linha de frente no Brasil, não existia até a década de 1950. Em 1959 surgiram as primeiras, notadas em uma edição do Concurso Nacional da Rádio Record. Hoje, no entanto, quase nenhuma banda marcial desfila sem seu corpo coreográfico. 

Arcadia H.S Apache Color Guard | Rose Parade 2017 Pasadena, … | Flickr
Arcadia HS Apache Color Guard

Porém, nenhuma ala das banda passaram ilesas, à influência das bandas americanas. O corpo coreográfico também foi se transformando e adicionando novos elementos às suas coreografias, vindos das “color guards”, que são os corpos coreográficos das bandas americanas. Elementos como flâmulas, bastões, espadas, rifles de madeira, passaram a ser usados por aqui também, aprimorando incorporando-se a apresentações de corpos coreográficos campeões do Brasil.

Nas Marching Bands das HBCUs, foi também incorporado uma sessão com bailarinas, além da “Color Guard”. Elas são vistas somente nesse estilo de banda.

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