As bandas marciais são conjuntos musicais compostos por instrumentos da família dos metais, como tubas, sousafones, eufônios, trombones, trompetes, flugelhorns e trompas,  além de instrumentos de percussão rudimentar, como bumbos, caixas e pratos. 

Em geral, as bandas marciais são compostas por alunos de diferentes perfis. Desde crianças e adolescentes em idade escolar, até instrumentistas profissionais e amadores adultos, vindos da comunidade no entorno da banda.

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No Brasil, as fanfarras e bandas marciais representam uma tradição comum do interior, e são mantidas por escolas e projetos culturais, com apoio dos governos municipais, estaduais e, com menos frequência, com apoio da iniciativa privada. Devido a esse vínculo com o poder público e com a comunidade, as bandas marciais estão sempre presentes em solenidades, desfiles cívicos, e competições; com o intuito de entreter o público.

Porém, para entender de verdade o trabalho das bandas de música marcial, precisamos revisitar as transformações que elas sofreram, e suas principais influências e características.

História das bandas marciais

Charamela – Wikipédia, a enciclopédia livreCharamelas

Alguns indícios indicam que as primeiras bandas de música civis brasileiras datam de 1554 durante o período colonial. Eram compostas muitas vezes por índios, africanos escravizados, e até portugueses. Eram sediadas em fazendas no interior do Brasil e chamadas de “Charamelas”, por causa do uso de um instrumento musical que parecida com uma flauta ou clarinete, vindo da região oriental da Europa.

O jornalistas e crítico musical José Ramos Tinhorão em seu livro “História Social da Música Popular Brasileira”, diz que no século XVIII, surgiram as chamadas bandas de barbeiros, substituindo os “Chameleiros”. No entanto, os barbeiros eram normalmente negros africanos libertos da escravidão, que tocavam em seus períodos de folga, o que manteve as bandas entre os mesmos componentes. As bandas de barbeiros desaparecem junto com o fim da escravidão, que desestabilizou a situação social e econômica da colônia, dando lugar as bandas militares.

Bandas Militares

Ainda segundo Tinhorão, as bandas de barbeiros são substituídas pelas bandas militares a partir do século XIX, e nas pequenas cidades surgem as bandas municipais ou liras, como eram chamadas. Alguns pesquisadores sugerem, no entanto, que as bandas militares surgiram oficialmente no Brasil, com a chegada da família real portuguesa, em 1.802, e se manteve durante os I e II Impérios, atuando principalmente em solenidades.

Ficheiro:Banda da brigada militar de porto alegre.jpg – Wikipédia ...
Banda Militar de Porto Alegre Brasil

Quando foi criada a Guarda Nacional em 1831, as banda militares se disseminaram, dada a obrigatoriedade da formação de bandas em cada um dos segmentos militares, adotando o modelo europeu de bandas. Essa obrigação se encerra no período Republicano, a partir de 1889 e retorna da era Vargas (1930-1945), mas dessa vez voltada ao ensino de música nas escolas, através da criação de bandas e fanfarras escolares ou estudantis.

Competição e Rivalidade

Os elementos militares, ou marciais, foram definitivamente adotados pelas bandas, depois da forte influência do período de disseminação das bandas militares. Esses elementos passariam a ser usados como critérios competitivos entre as bandas, no momento onde elas voltavam a ser entidades civis.

Atualmente as competições promovidas por associações e federações nacionais, as quais as bandas se filiam, utilizam justamente estes elementos como critérios de avaliação dos competidores. São observados a Ordem Unida, conjunto de regras para o deslocamento ordenado de tropas, a uniformidade, padrão da vestimenta de todos os componentes da banda, qualidade técnica musical e coreográfica da banda. Esses elementos são avaliados com rigor militar, embora com o passar dos anos tenha havido uma certa flexibilização das exigências militares nas competições. 

Renan Pimenta Filho, em seu livro “O Papel das Bandas de Música no contexto Social, Educacional e Artístico”, narra um evento curioso de decorreu da penetração das bandas de música novamente na sociedade civil: algumas bandas ligadas a partidos políticos tornaram-se rivais entre si, chegando a violência física, com feridos e até mortos, durante a República. Mesmo com o fim dos partidos políticos, já no regime republicano, as bandas guardaram a herança do instinto competitivo vindos dessa época, e que influência até hoje as competições, embora as agressões atuais não passam de xingamentos.

Bandas de Música Evangélicas

Banda da Igreja Assembleia de Deus - YouTubeTambém a partir dos anos 1930, surgiram bandas situadas em igrejas evangélicas e formadas por membros da igreja. Essas bandas são bastante comum ainda hoje, e tem como principal função executar músicas religiosas, temas cívicos e músicas clássicas.

É comum que membros de bandas religiosas procurem bandas e fanfarras atrás de educação musical, ou mesmo de um instrumento para praticar.

Influência das bandas marciais americanas

No fim da década de 1990, as bandas marciais brasileiras passaram a sofrer uma forte influência das bandas americanas em seu instrumental, uniformes, coreografias, técnicas instrumentais, etc. Com a abertura da economia brasileira e o início da disseminação do acesso à internet, às banda nacionais passaram a adotar diferentes aspectos do jeito americano de fazer banda.

Leia também nossa matéria sobre as bandas marciais americanas.

Uniformes

Até o fim da década de 1990, as bandas utilizavam fardamentos bastante similares aos usados nas bandas militares. Era comum o uso de túnicas e sobretudo, com as cores da banda, calças e sapatos coloridos, além  de ornamentos que lembravam os uniformes de cerimonial militar.

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Drumline Brigham Young Cougars Band

 

 

 

 

 

A partir da influência americana, as túnicas ficaram mais curtas, as calças deram lugares a macacões e os sapatos coloridos foram substituídos por botas de uma única cor.

Instrumental de Percussão

Um dos principais elementos da influência das bandas americanas nas corporações brasileiras, foi a adoção de um instrumental de percussão desenvolvido especificamente para as necessidades das bandas americanas, que se apresentam em campos de futebol, subdivididos em jardas.

Os instrumentos adotados foram as caixas tenores, chamadas de “Snare Drum”, bumbos polifônicos ou “Bass Drum”, também chamados de “bumbos de afinação”, por serem de afinações diferentes, e diferenciando-se dos “fuzileiros”, bumbos com apenas uma afinação. E, finalmente, os “Tenors Drum”, que são os quadritons (com quatro peças), quintos (com 5 peças) ou sixtons (com 6 peças).

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As técnicas utilizadas nesses instrumentos, também precisaram ser importadas e adaptadas a realidade das corporações brasileiras. Nesse sentido, além das técnicas para percussão rudimentar, os ritmistas também passaram a estudar os instrumentos de percussão sinfônica, como tímpanos, marimbas, glockenspiel, campanas tubulares, etc., também usados pelos americanos.

Corpo Coreográfico

A linha de frente não existia até a década de 1950. Em 1959 surgiram as primeiras, notadas em uma edição do Concurso Nacional da Rádio Record. Hoje, no entanto, quase nenhuma banda marcial desfila sem seu corpo coreográfico. 

Leia também nosso texto sobre “Color Guard”, onde nos aprofundamos um pouco mais sobre essa prática e na forma como ela foi adotada no Brasil.

Color Guard | Tiger Band
Color Guard Tiger Band – Clemson University

O corpo coreográfico também foi se transformando e adicionando novos elementos às suas coreografias, vindos das “color guards”, que são os corpos coreográficos das bandas americanas. Elementos como flâmulas, bastões, espadas, rifles de madeira, vem sendo usado, aprimorando sua aparência performática.

Os uniformes também passaram a adotar elementos americanos, passando de uma versão adaptada do uniforme do corpo musical, para um um figurino exclusivo do corpo coreográfico.

Atualidade

Nos concursos de bandas e fanfarras atualmente, podemos notar uma preocupante diminuição do número de bandas participantes. Apesar de algumas bandas trabalharem na preparação das gerações futuras, em bandas voltadas exclusivamente para crianças e adolescentes, competindo nas categorias infantil, infanto-juvenil e juvenil, as bandas e fanfarras já não são populares como no passado.

Muitos dirigentes atribuem o desinteresse dos jovens nas bandas, a uma competição cada vez mais acirrada com as novas tecnologias como smartphones, redes sociais, etc. No entanto, as bandas preservam sua função histórica de oferecer educação musical e cultura às populações mais carentes, criando as pontes para uma cultura reservada, até então, às elites. 

Também é grande o número de alunos das bandas marciais que ingressam em conservatórios e faculdades de música, procurando seguir carreira nessa área. Mas, para além da profissionalização, as bandas proporcionam um ótimo ambiente para o desenvolvimento e formação de cidadãos cientes do seu papel na equipe e na comunidade, além de serem disciplinados e obedientes às autoridades estabelecidas pela banda, com senso crítico musical e social.

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Referências

Programa Tradições do Interior – TVUnesp

https://www.youtube.com/watch?v=N7K_-_5Ys1M

GRANJA, MAria de Fátima Duarte; TACUCHIAN, Ricardo. Organização, significado e funlões da banda de música civil. Pesquisa e Música: Revista do Centro de Pós Graduação, Pesquisa e Especialização do Conservatório BRasileiro de Música, Rio de Janeiro, n. 1, p. 27-40, 1984-1985

 TACUCHIAN, Ricardo. Bandas: anacrônicas ou atuais. Art: revista da Escola de Música e Artes Cênicas da UFBA, Salvador, n. 4, p. 59-77, 1982.

 PEREIRA, José Antônio. A banda de música: retratos sonoros brasileiros. São Paulo: UNESP, 1999.

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1 COMENTÁRIO

  1. Muito bom o artigo, sucinto e objetivo, com boa descrição sobre nossa história! Sugiro um destes para o Regente Mor.
    Parabéns, abraços.

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